quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A época do TELECATCH

 O Telecatch Montilla era a versão brasileira das lutas-livres e foi um dos programas responsáveis por alavancar a audiência da TV Globo na década de 1960.
- No programa, aproveitando a distração do juiz, o vilão batia covardemente no mocinho, e o público, com raiva, gritava e jogava sapatos e guarda-chuvas no ringue. Na luta encenada, valia tudo: mordida, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça, limões espremidos nos olhos, supercílios cortados com gilete e até bater no juiz. Quando tudo parecia perdido, o bonzinho recuperava as forças, aplicava uma série de tesouras voadoras no malvado e vencia a luta.

 Na TV Globo, o programa tinha a direção de Renato Pacote e Teti Alfonso. A narração era de Tércio de Lima e o anunciador das lutas era Jayme Ferreira
- Telecatch Montilla foi originalmente criado na TV Excelsior e passou a ser exibido pela Globo em 1967. Era transmitido ao vivo do auditório da emissora, aos sábados, inicialmente às 20h. Dois anos depois, o programa passou a ser exibido na TV Tupi. Saiu do ar em 1972.
- O principal personagem do programa era Mario Marino, um italiano que desembarcou em Buenos Aires aos 12 anos e veio para o Brasil com 24. De cabelos loiros e porte atlético, consagrou-se como Ted Boy Marino.
- O galã loiro tinha muita popularidade entre as crianças e o público feminino. Ele conta que, na época, chegou a receber mais de duas mil cartas por semana e que precisava entrar com seguranças na TV Globo devido ao assédio dos fãs. Mas os bons tempos foram interrompidos pela censura, que tirou a luta-livre do horário nobre e, depois, da programação. O espetáculo-marmelada fazia muito sucesso e ainda voltou em várias versões nas décadas de 1970 e 1980 em outras emissoras.
- Ted Boy conta que para lutar era preciso habilidade e muito treino, para saber cair. Mas, apesar do seu know-how, ele se acidentou diversas vezes: quebrou joelho, tornozelo, braço, ombro e costelas.

- Depois que o gênero saiu de moda, o lutador passou a se apresentar em clubes e teatros do interior. Participou também de programas humorísticos, como Os trapalhões e a Escolinha do professor Raimundo.
- Os outros personagens conhecidos como os reis do ringue eram: o traiçoeiro Mongol, o exótico Leopardo, o extraordinário Tigre Paraguaio, o misterioso Verdugo, o impagável Tony Videla, o irritante Rudy Pamias, o violento Rasputin Barba Vermelha, o campeão Caruso e os irmãos estilistas Beto e Sergio.
Como funcionavam as lutas de telecatch:
- As lutas colocavam frente a frente um “bonzinho” contra um “malvado”. Havia o “cruzamento de espadas”, golpe em que o lutador forçava o oponente no tablado encostando peito a peito. Se o lutador de baixo não se livrasse em três segundos, perdia o combate. Havia também a “tesoura voadora”, o golpe em que se “voava” com os dois pés no peito do adversário, mandando-o para a lona. E havia também o “soco-inglês” – uma peça metálica que se encaixa nos quatro dedos da mão, com exceção do polegar, para desferir golpes violentos no adversário.

- Só os malvados usavam soco-inglês; bonzinho se defendia. Os malvados batiam até “tirar sangue” do bonzinho. Mas Ted Boy Marino, o galã, não colocaria a cara para bater até sangrar. É que a telinha não mostrava, mas o vilão pegava no corner saquinhos de plástico com groselha. Ele fechava a mão com o soco-inglês e quando desferia o golpe na cara do bonzinho, espremia a groselha que explodia “em sangue”. No dia seguinte, o bom rapaz aparecia sem nenhuma cicatriz no rosto.
- No ringue, os personagens se digladiavam sob as marcações de uma luta ensaiada. A encenação era marcada pelo tom caricatural e cômico dos golpes e dos estilos de seus protagonistas. O programa chegou a despertar protestos de lutadores, empresários de boxe, jornalistas esportivos e pugilistas, que acreditavam que as lutas-livres ensaiadas da TV, com golpes combinados e o final previamente decidido, desmoralizavam o boxe brasileiro.

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